quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sinto que morrerei em breve

Sinto que morrerei em breve,
E na vã esperança de ser lido,
Antes que Pã me leve
Vos escrevo este pedido.
Não sofram minha ausência
Porque não a sofrerei eu.
Entregar-me-ei à nossa ciência
Como sempre fui: mero plebeu.
Atirem-me ao fogo,
Que é a luz da vida.
Ah!, a ironia do jogo
Que não acaba na saída!
(E sem razão se vai fazendo tudo
Enquanto tentamos dar-lhe uma…
… … …
Dividam as minhas cinzas
Em apenas quatro porções.)
A primeira,
Deitem-na, calmamente, ao mar.
Com Posídon lá jazerá
Essa minha parte, a flutuar
No prazer que não me dá.
A segunda,
Entreguem-na aos ventos
Da mais alta cumeeira.
À mão de Zéfiro e Nótus,
Na aventura verdadeira.
A terceira,
Na mais bela das florestas,
Dançando com as ninfas de Pã.
Estas comigo, e eu com estas,
Habitantes da eterna manhã.
A quarta,
Com Filotes ficarei
Na casa da família
Em qual por tempos fui rei,
Guardador errante da mobília.
E agora, meus amigos:
Posso morrer contente
E de alma erguida,
Explorando os perigos,
Navegar na corrente
Pela qual lutamos na vida.

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