sábado, 7 de março de 2015

É tão simples quanto isso:
De tão simples sê-lo,
Sê-lo-á tanto de enguiço
Quanto maior for meu duelo

Pois a cabeça tem armas
E o coração, dele, escudos
Que escudam de outros mas
Às armas são mudos.

Por ora, eu faço minha
E tu farás com a tua.
Cruzados ou em linha,
Armas e escudos se batem
Em carne viva e nua.

Hás de voltar.
Assim se verá!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sinto que morrerei em breve

Sinto que morrerei em breve,
E na vã esperança de ser lido,
Antes que Pã me leve
Vos escrevo este pedido.
Não sofram minha ausência
Porque não a sofrerei eu.
Entregar-me-ei à nossa ciência
Como sempre fui: mero plebeu.
Atirem-me ao fogo,
Que é a luz da vida.
Ah!, a ironia do jogo
Que não acaba na saída!
(E sem razão se vai fazendo tudo
Enquanto tentamos dar-lhe uma…
… … …
Dividam as minhas cinzas
Em apenas quatro porções.)
A primeira,
Deitem-na, calmamente, ao mar.
Com Posídon lá jazerá
Essa minha parte, a flutuar
No prazer que não me dá.
A segunda,
Entreguem-na aos ventos
Da mais alta cumeeira.
À mão de Zéfiro e Nótus,
Na aventura verdadeira.
A terceira,
Na mais bela das florestas,
Dançando com as ninfas de Pã.
Estas comigo, e eu com estas,
Habitantes da eterna manhã.
A quarta,
Com Filotes ficarei
Na casa da família
Em qual por tempos fui rei,
Guardador errante da mobília.
E agora, meus amigos:
Posso morrer contente
E de alma erguida,
Explorando os perigos,
Navegar na corrente
Pela qual lutamos na vida.

domingo, 3 de novembro de 2013

Tu, que não és tu, de tantas formas e feitios

Mais uma vez estive contigo, Tu, que não és tu.
Cara tão bem conhecida e alma ainda tão por descobrir.
Comigo vieste ter e quiseste-me de seguida,
Tal como te vi e logo cri que te queria.
Um amor perfeito, crescente como uma Lua eterna,
Eu devoto, Tu terna, cuidas de mim, mente tua,
E eu te protejo sempre que precises de meu braço.
Amor de aço, esse ansejo prisioneiro de agrado.
Meteste-me os braços em torno, olhaste-me para dentro
Entrando por meus olhos, poder incapacitante de todo.
Sorriste e eu morri mil vezes. Olhos brilhantes,
Dentes salientes, cabelos correntes e correntes em mim.
Cheiravas ao Fogo que da pele emanas, à Floresta
Que meu Deus Pã guarda, ao Mar em que me desejo afogar.
Peguei-te nas ancas, Adeus à memória vã que aguarda
E mais não pode esperar, porque já aqui estás.
Explodiu o meu peito logo que unimos os lábios: o desejo
Do teu sabor restrito, do tato ameno das peles húmidas.
Suave atrito dos corpos em trovoadas alardiosas mentais.
Eras minha e eu Teu, e tudo o que nos deu era nosso.
Abri os olhos, ainda te sentindo, como se tivesses sido real.
Acordei como se desejasse jamais cessar de dormir, felicidade dada
E agora roubada sem que controlo ou algo mais pudesse forçar.
Ainda ecoavas no meu pensamento, Tu e teus morosos efeitos.
Mas não temas, porque te acharei, Tu, de tantas formas e feitios,
Pois não é de mim desistir sem encontrar. Podes ajudar e guiar-me,
No mais íntimo desejo meu, até que o sonho seja feito em história.
Logo à noite sonharei outra vez, e Tu, que não és tu, serás sempre Tu.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mas que grande trovoada!

Mas que grande trovoada!
Que tremenda música
Que me grita que sou nada,
E treme-me com a metafísica.
Somos pequenos a valer
Na imensidão da Natureza,
Mas ainda há uns a crer
Que tudo tem uma certeza!
Mas, amigos ignorantes:
Tudo se faz sem razão.
Ainda que os pensadores errantes
Teimem em achar solução…
A inconsciência está à nossa volta
E nós superiorizando a mente
Quando é nada de nada neste mundo.
Por isso relaxo, ouvindo a revolta
Dos céus ao ser humano demente
Que é a revolta que sinto no fundo!

sábado, 26 de outubro de 2013

Lua Nova

Perdi. Sonhei e perdi.
O que poderia ter sido
Faz tudo parte do que não vi,
Faz tudo parte do partido.
Hora essa que soube do Fado
E da sua perversa ironia,
Foi a hora em que deixei cantado
O meu terror e a agonia.
As escolhas do coração
Não contam com pensamentos
Alheios, dos que na prisão
Dele vivem, ou morrem.
E tal como a lua é nova,
Hoje, também é minha certeza
Que o meu brilho não renova,
Não mais, enquanto penso.
Hoje a lua é nova…
Mas a lua está sempre cheia…
Nós é que só reparamos na sua parte brilhante.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Lua, que pareces pintada no céu
Numa tela escura de infinito,
Como um futuro que não é meu
Numa verdade que não admito.
Verdade essa que jaz,
Pois jaz, na ilusão
Que o pensamento faz
Em toda a sua confusão.
A lua vai ficando mais pequena
E menos brilhante a cada dia,
E com ela, na noite serena,
Descolora também a fantasia
Do pensar, ao sentir com a cabeça,
Do imaginar, ao prever a ciência,
Da noita da lua, até que alvoreça
Nas mentes dos que só têm consciência!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Pedras

Pedras na minha mão,
Lindas na minha mão.
Ao menos enquanto na mão
Não fica em pedra o coração.

Amo-as uma de cada vez,
Mas quando chega a sua vez,
Deito-as fora, de vez.
E fica em pedra o coração.




Sob as árvores, alheio
Da mente me deito e adormeço,
E as pedras, cheias, no seu meio,
De vida eterna que não mereço.

E fica em pedra o coração
Pois só assim é eterno.