domingo, 3 de novembro de 2013

Tu, que não és tu, de tantas formas e feitios

Mais uma vez estive contigo, Tu, que não és tu.
Cara tão bem conhecida e alma ainda tão por descobrir.
Comigo vieste ter e quiseste-me de seguida,
Tal como te vi e logo cri que te queria.
Um amor perfeito, crescente como uma Lua eterna,
Eu devoto, Tu terna, cuidas de mim, mente tua,
E eu te protejo sempre que precises de meu braço.
Amor de aço, esse ansejo prisioneiro de agrado.
Meteste-me os braços em torno, olhaste-me para dentro
Entrando por meus olhos, poder incapacitante de todo.
Sorriste e eu morri mil vezes. Olhos brilhantes,
Dentes salientes, cabelos correntes e correntes em mim.
Cheiravas ao Fogo que da pele emanas, à Floresta
Que meu Deus Pã guarda, ao Mar em que me desejo afogar.
Peguei-te nas ancas, Adeus à memória vã que aguarda
E mais não pode esperar, porque já aqui estás.
Explodiu o meu peito logo que unimos os lábios: o desejo
Do teu sabor restrito, do tato ameno das peles húmidas.
Suave atrito dos corpos em trovoadas alardiosas mentais.
Eras minha e eu Teu, e tudo o que nos deu era nosso.
Abri os olhos, ainda te sentindo, como se tivesses sido real.
Acordei como se desejasse jamais cessar de dormir, felicidade dada
E agora roubada sem que controlo ou algo mais pudesse forçar.
Ainda ecoavas no meu pensamento, Tu e teus morosos efeitos.
Mas não temas, porque te acharei, Tu, de tantas formas e feitios,
Pois não é de mim desistir sem encontrar. Podes ajudar e guiar-me,
No mais íntimo desejo meu, até que o sonho seja feito em história.
Logo à noite sonharei outra vez, e Tu, que não és tu, serás sempre Tu.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mas que grande trovoada!

Mas que grande trovoada!
Que tremenda música
Que me grita que sou nada,
E treme-me com a metafísica.
Somos pequenos a valer
Na imensidão da Natureza,
Mas ainda há uns a crer
Que tudo tem uma certeza!
Mas, amigos ignorantes:
Tudo se faz sem razão.
Ainda que os pensadores errantes
Teimem em achar solução…
A inconsciência está à nossa volta
E nós superiorizando a mente
Quando é nada de nada neste mundo.
Por isso relaxo, ouvindo a revolta
Dos céus ao ser humano demente
Que é a revolta que sinto no fundo!

sábado, 26 de outubro de 2013

Lua Nova

Perdi. Sonhei e perdi.
O que poderia ter sido
Faz tudo parte do que não vi,
Faz tudo parte do partido.
Hora essa que soube do Fado
E da sua perversa ironia,
Foi a hora em que deixei cantado
O meu terror e a agonia.
As escolhas do coração
Não contam com pensamentos
Alheios, dos que na prisão
Dele vivem, ou morrem.
E tal como a lua é nova,
Hoje, também é minha certeza
Que o meu brilho não renova,
Não mais, enquanto penso.
Hoje a lua é nova…
Mas a lua está sempre cheia…
Nós é que só reparamos na sua parte brilhante.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Lua, que pareces pintada no céu
Numa tela escura de infinito,
Como um futuro que não é meu
Numa verdade que não admito.
Verdade essa que jaz,
Pois jaz, na ilusão
Que o pensamento faz
Em toda a sua confusão.
A lua vai ficando mais pequena
E menos brilhante a cada dia,
E com ela, na noite serena,
Descolora também a fantasia
Do pensar, ao sentir com a cabeça,
Do imaginar, ao prever a ciência,
Da noita da lua, até que alvoreça
Nas mentes dos que só têm consciência!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Pedras

Pedras na minha mão,
Lindas na minha mão.
Ao menos enquanto na mão
Não fica em pedra o coração.

Amo-as uma de cada vez,
Mas quando chega a sua vez,
Deito-as fora, de vez.
E fica em pedra o coração.




Sob as árvores, alheio
Da mente me deito e adormeço,
E as pedras, cheias, no seu meio,
De vida eterna que não mereço.

E fica em pedra o coração
Pois só assim é eterno.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Confissões

Sou um desistente...
Desisti de mim e desisti da vida.
O que meu o coração sente
É o términus da corrida.

Sou um pessimista...
Luz aqui ou luz acolá
Não alcança a vista
Mesmo até quando a há.

Vi o mundo e vi o Fado
E, dele, fadado assim ficou
Como de quem lança o dado
Pois ao Fado o entregou.

Nunca fui senão vigário...
Conselhos de um homem
Que jamais abandonou o armário,
E que por ele rezem!

Acabarei, assim, digno de dó,
Cego da dúvida sem solução.
As prateleiras da mente a ganhar pó
Justamente por minha decisão.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Versos de um Solitário

Está uma noite calma e escura.
A lua brilha, branca como o gesso.
Oiço o miado de um gato em fuga,
E quanto mais eu penso mais eu arrefeço.

Apesar da brisa breve,
A sua frigidez não perdoa.
Acaricia-me a pele com uma leve
Sensação, que apesar de cortante, não magoa

Pois mais que tudo o resto
Está com dor o pensamento.
E enquanto permanece o tormento
O corpo não tem direito ao manifesto.

Por isso, olho o céu negro.
Cumprimento a minha amiga estrela,
Sozinha, lá no eterno infinito…
Estou tão só como ela.

Reconforto-me com o pequeno que sou,
E que bom que sei que assim o sinto.
Mesmo que já não mude o que passou,
O amanhã é só meu!

Penso, assim, na minha morte
(Num túmulo de pedra escura),
E dou graças à minha sorte
Se houver próxima aventura.